Caso de sucesso de tratamento de STFF tratada com Ablação de Anastomoses Placentárias

Ablação de Anastomoses Placentárias

A STFF (Síndrome de Transfusão Feto Fetal) afeta de 10 a 15% das gestações gemelares monocoriônicas. Embora a incidência seja relativamente alta, o tratamento intrauterino por meio do procedimento de Ablação de Anastomoses Placentárias ainda é pouco conhecido.

Essa síndrome ocorre quando existe passagem de sangue, de forma desequilibrada, entre um feto (doador) e o outro feto (receptor), através de Anastomoses Vasculares Placentárias.

Anastomoses podem ser definidas como redes de canais que se bifurcam e recombinam em vários pontos, tais como os veios de uma folha. Em Medicina, o termo é usado para designar a comunicação entre vasos sanguíneos.

Um dos principais desafios, diante do diagnóstico, é o fato de que a STFF pode evoluir rapidamente de grau. Ou seja, passar dos estágios iniciais para os mais severos em pouquíssimo tempo. Por isso, exige acompanhamento próximo.

Acompanhe a seguir mais um caso de sucesso que a nossa equipe teve a oportunidade de tratar no ano de 2020, por meio do procedimento de Ablação de Anastomoses Placentárias.

Novo caso de Ablação de Anastomoses Placentárias

Em meados de fevereiro, a mamãe de gêmeos estava com 17 semanas e cumpria a agenda padrão de ultrassonografias do pré-natal. Durante o exame das 17 semanas, estava especialmente animada para descobrir o sexo dos bebês.

Durante o ultrassom, percebeu que a médica responsável tinha reações diferentes, com um pouco de preocupação. Avaliou que estava olhando pouco para ela, e que tinha algo estranho acontecendo.

Assim que a médica terminou as medições, pediu para que a gestante aguardasse um pouco fora da sala. Chamou então um outro profissional para avaliar conjuntamente e ambos concordaram que as medidas estavam um tanto discrepantes.

Liberaram o laudo com urgência e, ao comunicarem à gestante, ela ficou sem chão. Abalada, apegou-se no pensamento de que a Medicina vem evoluindo – e que já deveria ter algum tratamento possível.

Logo no dia seguinte, a gestante foi direto ao médico do pré-natal, que a indicou para uma especialista em gestações gemelares monocoriônicas. A médica confirmou a STFF, estudou todo o histórico da gestante e entregou um relatório completo logo do dia seguinte.

Junto ao relatório, a especialista indicou duas equipes aptas a realizar o tratamento intrauterino, sendo uma delas a nossa, em Curitiba. A gestante entrou em contato e pudemos iniciar a nossa caminhada para realizar a Ablação de Anastomoses Placentárias.


Os desafios legais para o tratamento da STFF

Uma vez que ficou clara a indicação do procedimento de Ablação de Anastomoses Placentárias, a gestante se deparou com o primeiro desafio de execução. Ao dar entrada no pedido de cobertura para o Plano de Saúde, encontrou silêncio e demora.

Desde o primeiro contato, dias se passaram sem manifestações: nem positiva e nem negativa. Como os procedimentos cirúrgicos fetais ainda não constam no rol de procedimentos da ANS, em geral é necessário esforço judicial para tornar a cobertura obrigatória.

Enfim, o Juiz concedeu a liminar, possibilitando o agendamento do procedimento.

Os desafios técnicos para viabilizar a Ablação de Anastomoses Placentárias

Assim que chegou em Curitiba, foi reavaliada pela nossa equipe e novos ultrassons também foram realizados. Às 18 semanas de gestação, detectou-se que a STFF estava no grau dois. Explicou-se sobre o comportamento da síndrome, que de um dia para o outro poderia passar do grau dois para o cinco, com óbito de um dos bebês.

Dessa forma, a cirurgia seria marcada, mas no dia da realização haveria uma nova avaliação da situação dos bebês, a fim de confirmar se ainda valeria a pena intervir. Da mesma forma, o colo de útero deveria estar em boas condições.

Chegado o dia, um novo ultrassom confirmou que o grau dois havia sido mantido e que o colo do útero era favorável. Se não fizesse a cirurgia, a chance de perder ambos os fetos era de 95%. Fazendo, a chance de salvar um dos fetos era de 70%. Enquanto a chance de salvar a ambos era de 40%.

Explicamos que a Ablação de Anastomoses Placentárias seria feita por via endoscópica,  com o uso de laser. E que o restante da gestação deveria ser monitorada de forma especial, com novos exames a cada 15 dias.

A realização da Ablação de Anastomoses Placentárias

O procedimento de Ablação de Anastomoses Placentárias foi realizado com tranquilidade, durando cerca de 40 minutos. A cauterização das anastomoses foi feita com sucesso.

Uma semana após, a gestante retornou para fazer um novo ultrassom com a nossa equipe para avaliar como os bebês haviam reagido. Felizmente, ambos estavam muito bem.

Porém, o colo do útero apresentava um pequeno nível de afunilamento, tornando o risco de prematuridade alto. Assim, a meta estabelecida foi levar a gestação até 30ª semana, com grandes chances dos bebês sobreviverem.

A gestante retornou então para sua cidade natal, levando todas as informações para o médico responsável pelo pré-natal: ultrassom com doppler, a cada 15 dias, para monitorar o fluxo sanguíneo e outros marcadores.

Quando estava com 22 semanas, o colo do útero estava com 2,7 cm. Por isso, optou-se por realizar a cerclagem, que foi muito bem sucedida, e possibilitou levar a gestação até 35 semanas.

Na 32ª semana, foram administradas 4 doses de corticóide para acelerar o desenvolvimento dos pulmões do bebês. E no dia em que a gestação completou 35 semanas, foram administradas mais duas novas doses.

 

A chegada dos bebês, após a superação da STFF

Com 35 semanas e dois dias, o parto foi agendado. O líquido amniótico estava diminuindo, e a placenta começava a dar indícios de a calcificação. Assim, não poderiam correr o risco de deficiência placentária.

O parto foi tranquilo. A internação foi feita às 9h, a anestesia foi realizada às 10h40 e, às 10h44, nasceu o primeiro bebê. O segundo chegou logo em seguida, às 10h46. Nasceram bem, chorando bastante, sem necessidade de oxigenação adicional.

Às 11h30, a nova mamãe e os bebês já estavam no apartamento. Já tinham passado pela sala avaliação e passavam todos bem. Ficaram no hospital por apenas 3 dias, para acompanhamento, e já puderem ir para casa.

 

A democratização da Ablação de Anastomoses Placentárias

Diante de um diagnóstico de STFF, muitas famílias ainda não conseguem ter acesso e conhecimento sobre a possibilidade do tratamento intrauterino. Ou, quando conseguem, a síndrome já avançou a ponto de não justificar uma intervenção.

Neste caso,  a gestação gemelar foi natural, sem qualquer tratamento de fertilidade, sendo uma grande surpresa. Por isso, tudo foi muito novo, desde o início. O próprio fato de serem gêmeos e todos os cuidados especiais envolvidos, fez com que o alerta fosse grande.

Assim, o diagnóstico de Síndrome da Transfusão Feto Fetal, assim como os caminhos para viabilizar o procedimento de Ablação de Anastomoses Placentárias, foram tratados com a máxima agilidade.

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