Caso: Cirurgia Fetal de Mielomeningocele, diagnosticada por Hidrocefalia, é realizada em Curitiba

A  Mielomeningocele, ou espinha bífida, é um tipo de malformação fetal geralmente diagnosticada via ecografia morfológica, entre 18 e 22 semanas de gestação. Sua presença pode ser percebida pela visualização direta do defeito, localizado na espinha dorsal. Ou, em alguns casos, por alterações na cabeça do feto em quadros de Hidrocefalia.

A Hidrocefalia se dá por acúmulos de líquidos na cabeça, que provocam danos nas estruturas encefálicas. Essa condição, durante a formação do corpo, pode acarretar em deformidades cranianas e sintomas físicos que limitam a vida plena. Assim, em casos fetais, é possível haver a necessidade de implantar uma válvula peritoneal de drenagem no recém-nascido, além de outras intervenções pediátricas.  

Tratamento intrauterino de Mielomeningocele em Curitiba

Em 2017, nossa equipe teve a oportunidade de conduzir um tratamento intrauterino de Mielomeningocele, diagnosticada por Hidrocefalia grave, ainda na 12ª semana de gestação. Também foi percebida uma leve atrofia nas pernas. Tratava-se da Síndrome de Arnold Chiari tipo 2, que provoca o deslocamento de estruturas da base do cérebro para dentro do canal espinhal.

O caso havia sido encaminhado para São Paulo, maior centro de referência em Medicina Fetal do Brasil. Mas sendo a família curitibana, encontrou em nossa equipe uma opção mais próxima para o tratamento. Dessa forma, proximidade geográfica, além de conforto logístico, trouxe agilidade para estudar com cuidado a viabilidade (e possíveis ganhos) dessa intervenção cirúrgica fetal.

Como a Hidrocefalia foi percebida cedo, eram significativos os apontamentos de que seria viável interrompê-la. E mais, que houvesse uma regressão a partir da correção da Mielomeningocele. O maior ganho de corrigir essa malformação ainda no útero é o fato de que o corpo ainda está em formação. Assim, poderá seguir se desenvolvendo de forma mais saudável.

O sucesso do tratamento, nesse caso, almejava também extinguir as necessidades de novas cirurgias neurológicas na primeira infância, assim como o implante da válvula. Somado a isso, buscávamos preservar as capacidades motoras, cognitivas e a qualidade de vida da criança.  

O planejamento da Cirurgia Fetal de Mielomeningocele

Um diagnóstico como este gera turbilhões de emoções e ansiedades, tanto para a família, quanto para a equipe médica. Mas embora a agilidade seja um fator decisivo para conquistar bons resultados, consideramos imprescindível aplicar práticas de “slow medicine”.

Entendemos que atenção em casos de malformação deve ir além do suporte técnico. É necessário prestar atendimento humanizado, personalizado e multiprofissional. Assim, buscamos proporcionar o melhor acolhimento, minimizando os desgastes emocionais. Assim, apenas após integrar pacientes e equipe médica, foi possível partir para a etapa de planejamento desta Cirurgia Fetal de Mielomeningocele.

Nesse Caso, contamos com uma equipe multidisciplinar formada pelo Neurocirurgião Dr. Adriano Maeda, Anestesioligista Dra. Dinamene Nogueira, Cirurgião Pediatra Dr. André Bradley e pelo especialista em Medicina Fetal, Dr. Rafael Bruns. Todos estiveram envolvidos integralmente durante o tratamento, incluindo o planejamento, a execução da Cirurgia Fetal, parto e acompanhamento dos exames neonatais.

A família também participou ativamente, desde os estudos de viabilidade e riscos, com a possibilidade de recuar a qualquer momento. O procedimento só foi adiante por não haverem dúvidas de que os benefícios de pausar a Hidrocefalia superavam os riscos, tanto para o feto, quando para a gestante. As avaliações prosseguiram até a decisão unanime pela realização desta Cirurgia Fetal de Mielomeningocele em Curitiba.

A realização da Cirurgia Fetal de Mielomeningocele e o acompanhamento

Após a avaliação da Anestesiologista, a Cirurgia Fetal de Mielomeningocele foi agendada em um grande Hospital local, equipado com todo o aparato necessário. Entre os equipamentos, microscópio cirúrgico, aparelhos anestésicos e ultrassom para uso em tempo real. Dessa forma, a Cirurgia Fetal pode ser realizada com sucesso, na 26ª semana da gestação. Durou cerca 3 horas e meia e transcorreu sem intercorrências.

Com tudo dentro do previsto, iniciamos a uma intensa fase de acompanhamento próximo. Após duas semanas, já era possível visualizar melhoras expressivas nas condições da Hidrocefalia e também da Mielomeningocele. Assim, o acompanhamento ultrassonográfico seguiu em regime de alerta, até a 33ª semana.

O nascimento do bebê e os resultados alcançados

A gestante entrou em trabalho de parto na 34ª semana. Uma cesariana foi realizada pelo obstetra responsável, desde o pré-natal, Dr. Vincius Zanlourenço. A equipe da Cirurgia Fetal de Mielomeningocele acompanhou o parto e as avaliações iniciais.

O bebê nasceu bem, apesar da leve prematuridade, e seguiu para a UTI Neonatal, onde permaneceu por duas semanas. A primeira preocupação foi a avaliação neurocirúrgica, para identificar o quão efetiva havia sido a abordagem. Então, para a alegria de todos, o sítio cirúrgico estava totalmente cicatrizado e os resultados foram atingidos.

A Hidrocefalia foi complemente restaurada, sem a necessidade de implante de válvula, ou de qualquer outra abordagem cirúrgica. A leve atrofia nas pernas foi paralisada, mantendo-se apenas como já estava antes da intervenção. Para esta, foram planejados alguns tratamentos e intervenções ortopédicas. Além disso, ficou estabelecido um acompanhamento neurológico semestral, por toda a vida.

Passados dois anos da Cirurgia Fetal de Mielomeningocele, a criança desenvolve-se bem, e a família leva uma vida tranquila.

Conclusões sobre o Caso de Cirurgia Fetal de Mielomeningocele, diagnosticada por Hidrocefalia

A Hidrocefalia pode sim ser um forte indicador da Mielomeningocele. E, certamente, o diagnóstico em tempo hábil é o que permite traçar uma abordagem fetal capaz de amenizar os danos causados por essa síndrome.

Assim, a atenção dos obstetras, médicos fetais e ecografistas, é fator determinante para o encaminhamento da gestante no período adequado. Quando ainda é possível traçar um estudo cuidadoso da viabilidade de uma possível intervenção intrauterina.

Nós, da equipe Cirurgia Fetal, estamos sempre à disposição de nossos colegas, profissionais de Obstetrícia, Pediatria e Medicina Fetal, para estudarmos juntos cada um dos casos.

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