Novos tratamentos via transplante fetal podem trazer alternativas para doenças de origem genética no sangue

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Alguma vez você imaginou que doenças hematológicas (doenças nas quais há alterações nas células do sangue), como por exemplo talassemias ou anemia falciforme, poderiam ser tratadas por meio de transplante fetal, durante a gravidez? Um tratamento assim poderia evitar o avanço dessas doenças.

É exatamente isso que os especialistas da Cirurgia Fetal e professores do Departamento de Cirurgia da UFPR, Camila Fachin e André Bradley dos Santos Dias, estudaram no Centro de Pesquisa Fetal do Children’s Hospital of Philadelphia, nos Estados Unidos. 

O trabalho experimental foi feito com fetos de camundongos, por meio do transplante de células-tronco modificadas. Com essa técnica, obteve-se sucesso do transplante fetal como nunca antes visto experimentalmente.

Os resultados foram publicados recentemente na revista Blood, da Sociedade Americana de Hematologia, periódico médico de publicação semanal que abrange pesquisas clínicas e básicas em todas as áreas da hematologia e que tem alto fator de impacto científico.

O estudo foi tema de um artigo muito bacana no Blog da UFPR, que você pode ler na íntegra clicando aqui.

Como é feito o transplante fetal? 

A competição de células hospedeiras é uma barreira importante para o enxerto após o transplante de células hematopoiéticas no útero (IUHCT). No estudo, foi descrita uma estratégia de engenharia celular usando nanopartículas carregadas com inibidor do glicogênio sintase quinase-3 (GSK3).

Elas foram conjugadas à superfície das células hematopoiéticas do doador para aumentar a cinética de proliferação e capacidade de competir contra seus equivalentes do hospedeiro fetal.

As células saudáveis da mãe – ou outro doador saudável – são inseridas na corrente sanguínea do feto para que aconteça uma competição entre as células transplantadas e as com defeito do feto. A engenharia desenvolvida garante que as células saudáveis “vençam” a competição.

Com essa abordagem, foram alcançados níveis notáveis de enxerto hematopoiético estável de longo prazo, por até 24 semanas pós-IUHCT, que nunca antes havia sido demonstrado. Também foi mostrado que os efeitos salutares do inibidor de GSK3, liberado por nanopartículas, são específicos para células-tronco/progenitoras do doador e alcançados por um mecanismo pseudoautócrino. 

Esses resultados estabelecem que IUHCT de células hematopoiéticas decoradas com nanopartículas carregadas com inibidor de GSK3 podem produzir níveis terapêuticos de enxerto de longo prazo e, portanto, permitir o tratamento pré-natal em uma única etapa de distúrbios hematológicos congênitos.

É importante dizer que a concentração da substância aplicada nas nanopartículas não faz mal ao feto. Pelo contrário: foi percebido que o número de células saudáveis é maior no transplante fetal do que no procedimento após o nascimento, o que aumenta consideravelmente as chances de cura.

O impacto no cenário de anemia falciforme e talassemia

O Brasil é o país com maior incidência de anemia falciforme fora do continente africano. Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, cerca de 1.900 crianças com anemia falciforme nascem por ano no país. Em relação à talassemia, a OMS indica que, a cada ano, mil crianças nascem com a doença no Brasil. 

Essas crianças normalmente não conseguem ter uma vida plena, já que são frequentemente submetidas às transfusões sanguíneas e podem estar vulneráveis à outras doenças. Além dos tratamentos agressivos pelos quais elas podem passar durante o processo de um transplante tradicional, na busca pela cura. 

Sendo assim, o transplante fetal tende ter um impacto muito positivo na transformação deste cenário, ajudando também a evitar a sobrecarga do sistema de saúde.

Próximos passos do tratamento de transplante fetal

Os pesquisadores mantêm uma parceria com o Center for Fetal Research, na Filadélfia, para que, após os resultados significativos em animais de pequeno porte, sejam feitos testes com animais maiores. Se a eficácia e segurança forem comprovadas, os órgãos americanos responsáveis poderão autorizar o teste em humanos.

Equipe Cirurgia Fetal em Curitiba

 

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André Ivan Bradley dos Santos Dias

Especialista em Cirurgia Pediátrica, professor adjunto de Medicina da UFPR e médico de Cirurgia Pediátrica da UFPR. Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, com residência em Cirurgia Geral e Pediátrica, mestrado em Cirurgia Pediátrica e doutorado em Ciência Cirúrgica interdisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo. Realizou Pós-Doutorado no The Childrens Hospital of Philadelphia no Center for Fetal Research, participou do Curso de Cirurgia Endoscópica Fetal e Neonatal na Universidade do Minho, em Portugal; e também do curso Fetal Therapy Simulation na 20th International Conference on Prenatal Diagnosis em Berlim, na Alemanha.

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Camila Girardi Fachin

Especialista em Cirurgia Pediátrica, professora adjunta do Departamento de Cirurgia de Medicina da UFPR e médica assistente do Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital de Clínicas da UFPR. É graduada em Medicina pela mesma universidade em que trabalha hoje, com residência de Cirurgia Geral e Pediátrica, aperfeiçoamento em Urologia Pediátrica, mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Cirúrgicas Multidisciplinar e Doutorado Sanduíche no Programa de Pós-Graduação em Obstetrícia na Universidade Federal de São Paulo. Também possui outro Doutorado no Center for Fetal Research do Childrens Hospital da Philadelphia e realizou o programa Global Leadership in Pediatrics da Harvard Medical School.


Além dos médicos especialistas em Cirurgia Pediátrica, Camila e André, a equipe de Cirurgia Fetal é composta por outros profissionais especialistas em áreas complementares como Medicina Fetal, Anestesia, Neurologia e Nefrologia, que hoje também atuam no Paraná.

Para saber mais sobre o nosso trabalho em Curitiba, conheça outras matérias aqui no Blog da Cirurgia Fetal.

 

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